Hoje, na farmácia, entrou um senhor. Deveria ter uns setenta anos. Diriguiu-se à empregada. "O senhor, faz favor..." Ele não hesitou, falou em voz baixa, com a determinação e a urgência de quem faz o que tem de ser feito. "Quero deixar de fumar". No mesmo tom com que poderia ter dito "quero um frasco de veneno para matar a minha mulher". A empregada, solícita, lançou-se num discurso entusiasta. "Não vale a pena - disse o senhor - dê-me lá o que é preciso, que pensar já eu pensei demais." Não havia nele satisfação, nem triunfo, nem a certeza de estar a viver o primeiro dia do resto da sua vida. Talvez fosse impressão minha, mas o que detectei foi vergonha. Vergonha, aos setenta e tal anos, de precisar de ajuda para acabar com um vício reprovável, repugnante, que o marginaliza, que o humilha.
Por mim, que nem fumo, não me faz qualquer diferença a lei do tabaco, devo confessar. Mas, tal como aquele senhor, cresci e vivi na companhia de milhões de imagens de sedução e glamour, em que o cigarro desempenhava se não o papel principal, pelo menos o de cúmplice dos principais.
Ora atentem bem e vejam se a chispa que inflama o olhar de Bogart nesta fotografia seria a mesma sem o momento íntimo, sedutor e cúmplice da chama que envolve subtilmente a ponta do cigarro?
espaço











Humphrey Bogart
Orson Welles

Johnny Guitar

James Dean
Roy Scheider no papel de Joe Giddeon, em All that Jazz, de Bob Fosse.

Rita Hayworth - Gilda
O que pensariam estes fumadores hoje, ao verem este anúncio, "made in Hollywood"?
Mas se o cigarro era uma boa muleta para criar uma imagem, para manter as mãos ocupadas, para compôr uma personagem (não encontrei imagens de Hitler, Salazar ou Mao Tse-tung a fumar), que não se preocupem os mais inseguros nestas matérias de imagem porque os políticos deste admirável mundo novo sem mácula e sem fumo estão a trabalhar em novas propostas para manter as mãos ocupadas e ajudar a compôr a imagem. Confiemos em que eles vão encontrar boas soluções!


11 comentários:
belo texto, MEC!!
toma lá um cigarro para continuarmos a conversa...
beijo saudoso!
B.
ahah!
brilhante.................
obrigada pelo cigarrinho, bandida. Numa cajadada só mato duas saudades.
beijo
obrigada, intruso! Beijo
brilhante, brilhante, brilhante!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!
Gostei imenso... vou levar e linkar, tá?
Kiss
Brilhante, o humor refinado! :):)
As imagens são de delirar (todas!), cada uma em seu género.
Beijinhos saudáveis mas com algum fumo!
já agora, quantos morreram de cancro?
Obrigada, S. Obrigada Ana Paula. Gosto de as ver por cá.
Beijinhos
anjinho, pois não muitos. Que eu saiba, só o Bogart. Natália Correia, Sartre, Malraux, Grouxo Marx, Orson Welles, Sterling Hayden e Monet, com idades respeitáveis, de causas diversas. Pessoa... talvez do mal de viver. James Dean de acidente (as estradas matam e ainda não foram proibidas). O Che, de bala (as guerras matam e são muito nocivas para a saúde pública). R. Reagan e Rita Hayworth creio que de Alzheimer. Roy Scheider está vivo.
A média é aceitável.
Obrigada pela visita
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